quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Os pais reconhecem os problemas dos filhos adolescentes.

A ostra começava a abrir-se. A professora tinha que aproveitar o momento para que o Nuno conseguisse dizer tudo. Por isso não o interrompeu para que o desabafo fluísse.


- Mas o ritual do cigarro transformou-se em algo muito perigoso! Numa noite de festa, troquei o tabaco por um charro. E depois foi só experimentar material novo para ter mais prazer. Agora já estou na fase da heroína. Os efeitos são devastadores. Quando me injecto tudo me parece fácil, leve, sem compromissos, mas… passado o efeito a minha cabeça estoura de dor. Parece que o meu cérebro não me obedece. Há dias em que o meu corpo fica de tal forma frágil e a cabeça oca que me apetece gritar e pedir ajuda. Mas a quem? Os meus pais parecem alheios à minha desgraça. A preocupação é meterem-me dinheiro para que eu não os chateie. Não me olham na cara. Se o fizessem já tinham visto que o Nuno não está cá a maioria das vezes. Tenho medo… mas a porcaria do vício é tanto que esta dependência doentia vai-se tornar no meu veneno mortal.

Encarregada de Educação do 7ºD

Emília Mendes

Viva! A primeira encarregada de educação a participar!

- O tabaco é um dos maiores inimigos da nossa saúde. Tens de ser tu a dar o primeiro passo para uma vida sem fumo – disse-lhe a professora, receosa que o Nuno se fechasse, ainda mais, depois desta observação.


O Nuno continuava com o olhar fixo no chão, as mãos nos bolsos, como se não se passasse nada com ele. Percebeu, no entanto, que a sua confidente não tinha entendido a gravidade da situação.

- Sabes Nuno, há uma ilusão de «glamour», poder, sucesso e sensualidade que envolve o acto de fumar e isso atrai as pessoas, principalmente adolescentes, em detrimento das consequências desastrosas desse acto.

- Mas, professora, se eu não acompanhar os meus amigos, não sou aceite e sou excluído desse mundo! – Exclamou o Nuno, com voz rouca, como se perdesse algo importante na sua vida.

A professora, mais uma vez, compreendeu o que se passava com o Nuno. Os eternos problemas da adolescência.

- A adolescência é a melhor fase, é nesta altura que descobrimos as coisas especiais deste universo imenso e repleto de coisas interessantes e valorosas. Julgo que o teu problema tem a ver com a amizade, em descobrires quem são os teus verdadeiros amigos. A adolescência é uma passagem para a maturidade e eu sei que no fundo tu sabes distinguir quem são os teus verdadeiros amigos.

Enc. Educação 7ºD

Fernanda Alves

O 7º D colocou o Nuno a falar.... finalmente!

Ela compreendeu que Nuno estava desesperado, havia algo no seu olhar, o rosto parecia petrificado, os lábios estavam tensos…


A professora Helena, corajosamente, perguntou-lhe:

- Nuno, bem sei que é difícil desabafar, mas, por vezes, liberta-nos da mágoa que sentimos, ajuda a aliviar a nossa revolta.

Nuno não conseguia soletrar uma única palavra, os seus olhos fixavam o chão e os seus pensamentos eram impenetráveis.

A professora Helena percebeu que aquele não era o momento…

Embora desconfiasse o que se passava com o Nuno, não podia ajudá-lo se ele continuasse fechado como uma ostra.

- Podes sempre contar comigo. – Disse-lhe carinhosamente, antes de se dirigir para a porta.

- Tudo começou com uma curiosidade banal, um grupo de amigos atrás do pavilhão que me convidou para fumar um cigarro. Eu podia ter vindo embora, mas queria ser igual àqueles que acompanhava, queria que me aceitassem. Pensei que seria apenas experiência de um dia ou dois, porém foi-se repetindo como se de um ritual se tratasse e como se eu fosse um viajante que não sabe o destino e por isso segue os outros. – Desabafava Nuno.

O 9º D reconheceu a importância de alguns professores na vida pessoal dos alunos.

Nuno levantou a cabeça. Sentia que podia estar à vontade com a stôra Helena. Mas que tinha aquela stôra de diferente?


Nuno já a conhecia há 4 anos e ela já o havia ajudado a ultrapassar algumas crises, como daquela vez em que perdeu o avô. Nessa altura a Stôra foi muito importante.

- Nuno! – abanou-o a professora- Estás ai?

Nuno lutava para se mater concentrado:

-Sim, stôra – respondeu num murmúrio

-Conta-me lá o que se passou!

O silencia era pesado. Nuno fixou a professora Helena com o seu olhar profundo como se lhe quisesse dizer o que sentia sem ter de usar as palavras.

O 8º A passou para a história experiências da escola

Um pouco atrasado, Nuno bateu à porta. O professor de matemática recebeu-o e recomendou-lhe que se sentasse sem fazer barulho.


Obedeceu como um autómato. Continuava perdido nos seus pensamentos quando foi interrompido pela voz forte do professor que lhe perguntou como se fazia o exercício.

Fora apanhado.

- Tenho mais em que pensar! – respondeu

O professor interpretou o desabafo de revolta como uma falta de educação e convidou-o a sair da sala de aula.

Encaminhado para a biblioteca, foi lá que encontrou a professora com quem se sentia mais à vontade.

Ela ficou espantada, incrédula com a atitude de um aluno que achava calmo

- Estás com algum problema, Nuno?

O 7º B agarrou-a muito bem!

    Nuno fingiu nem ouvir.


    Saiu da sala de jogos e foi para um canto sozinho. Com os phones nos ouvidos pensou no comentário feito pela colega. Sentiu revolta. As lembranças voltavam. Porque se transformara numa pessoa assim, fria, que esconde o que realmente sente?

   Nuno era alto, olhos castanhos,intensos. Neles adivinhava-se o mistério que o envolvia, algo de anormal num adolescente . Não olhava o mundo pela forma como queriam que ele o visse. O cabelo longo a acastanhado, com madeixas mais claras, quase angelical, quebrava o modo estranho de vestir preto que o caracterizava.

    Trrriiiim….. O turbilhão de pensamentos que tanto o perturbava foi interrompido.

    Baixou o volume da música e dirigiu-se à sala de aula.

O 8º D arrancou com a história...

- Neste momento não me apetece perguntar nada! A voz soava aborrecida.


- Pim! Pam! Pum! Cada bola mata um, p'ra galinha p'ro peru. Quem pergunta és mesmo tu! – apontou a Luísa à Filipa.

- Quando deste o teu primeiro beijo? – perguntou a Filipa ao Nuno.

- Agora já se fazem perguntas pessoais, é? – perguntou o Nuno com indignação.

- Sim, é por isso que estamos aqui! Ou pensas que íamos à missa?! – brincou a Catarina com um sorrisinho satisfeito.

- Tens mesmo piada, tu! – exclamou o Nuno.

- Achas mesmo? Nunca ouviste falar em ironia? – disse a Catarina a gozar.

- Não, mas já ouvi a falar em heroína e apetece-me! – gritou o Nuno, levantando-se e saindo da sala de jogos.

- Para isso tens tu coragem, ó parolo! – protestou a Eunice.